Deu n’O Globo, 30-julho-2007, caderno InfoEtc, [*] trabalho do compa André Machado. Ver abaixo.
Tudo ao mesmo tempo, sempre
André Machado
Falar de internet não significa mais falar apenas de tecnologia. A rede está tão entranhada em nossa rotina que muda aos poucos, todos os dias, nossa relação com o mundo e a vida. Pensando nisso, o consultor americano David Weinberger escreveu o livro “A nova desordem digital” (editora Campus. “Everything is Miscellaneous”, no original) para mostrar como as formas de (des)organização virtual têm impacto profundo em diversas áreas, inclusive na economia como um todo.
E nem é preciso ir longe demais com teorias “cabeça”. Um dos exemplos cristalinos citados no livro é a maneira como passamos a lidar com fotografia. Segundo David, um álbum físico de fotos armazena entre 15 e 200 imagens.
“Agora, dê uma olhada em seu computador. Se você têm uma câmera digital, deve ter salvado mil fotos em apenas alguns anos.”
As vendas das câmeras digitais começaram a ultrapassar as das câmeras comuns em 2003. Em 2004, foram vendidos 150 milhões de celulares com câmera, quase quatro vezes o número de câmeras digitais. Como as fotos digitais são praticamente gratuitas, tentamos tirar cada vez mais fotos, às vezes só para ver se conseguimos imagens melhores. Também armazenamos mais fotos, e nem sempre porque queremos. Como nossas câmeras aplicam aos arquivos nomes como DSC00165.jpg, é mais fácil manter as fotos ruins do que jogálas fora.” Arrumar direito tudo isso sozinho está fora de questão.
Daí sites que tornam a organização de imagens um fenômeno social, como o Flickr.
Hábitos já se adaptaram à era da informação Em entrevista por email, Weinberger conta que, sem perceber, modificamos muitos de nossos hábitos com a internet.
— Essas mudanças vêm desde o começo da web, e já contamos com elas — diz David. — Veja, lojas no mundo físico têm que arrumar seus produtos de algum modo; muitas usam o espaço contra nós, botando os produtos populares no fundo para que passemos diante de todos os itens que querem nos empurrar. Mas, se uma loja online nos obrigasse a olhar para produtos que não queremos antes de chegar aos que desejamos, nós sairíamos do site num segundo. [Bom, eles não nos obrigam, mas há os cookies…]
Segundo ele, também já damos como certo no ciberespaço que seremos capazes de navegar e buscar só as coisas que queremos naquele momento.
— Você não pode reorganizar num instante uma loja física, mas tem certeza de que conseguirá fazê-lo numa loja online.
As mudanças mais aparentes da nova desordem ciberespacial ocorrem onde as velhas formas de organização eram mais fortes.
Weinberger cita a forma como recebemos notícias como uma da revoluções mais importantes do mundo virtual, que afeta, por sua vez, a forma como interpretamos nosso ambiente político, cultural e econômico.
— Jornais e televisões precisam de editores para decidir o que vale notícia, o que devemos ver, e para decidir a hierarquia das matérias. Eles precisam chegar a uma capa única, a mesma para todo mundo — explica David.
— Mas, desde que a internet chegou, contamos uns aos outros o que achamos mais interessante, importante ou divertido no noticiário. Fazemos isso informalmente, em emails, listas de discussão, blogs e por aí vai. Agora surgem sites que permitem a grupos de usuários decidirem qual será a capa. Ele menciona como exemplos nos EUA o Digg.com e Reddit.com e diz que mesmo o jornal “USA Today” tem acrescentado parte dessa função a seu website.
Essa desordem digital seria uma tremenda oportunidade econômica, porque, para o autor, ela não é nem um pilha de coisas, nem uma bagunça total. É, sim, uma pilha em que cada um dos pedaços está “linkado” ao outro de diversas maneiras, que só fazem aumentar diariamente.
— Há valor incrível na forma com que os pedaços estão hiperligados uns aos outros — diz Weinberger.
— Essa riqueza de informação, essa riqueza de significado provê valor a ser cultivado. E sempre haverá novas oportunidades para criar melhores maneiras de achar o que precisamos.
O segredo, como ele deixa claro no começo do livro, é a substituição do físico pelo virtual, dos átomos pelos bits, da web-desordem aparente pronta para ser organizada segundo o desejo de cada usuário individual, de cliques no mouses em vez de passos em longos corredores encerados.
A questão é: 24 horas são suficientes para buscar tudo de que precisamos? Porque, quando mais se navega na internet, mais se tem a percepção de que o tempo é insuficiente para ir a todos os lugares. E só fazemos trabalhar mais e mais.
— Olha, essa reclamação vem desde o início da web, e sempre existirá — diz David. — Sempre haverá mais coisas a ler e ver do que conseguiríamos gerenciar em muitas vidas.
E ainda assim, pondera ele, a web foi criada justamente para resolver justamente esse problema do tempo.
— A web surgiu porque Tim Berners-Lee inventou um jeito de criar páginas com links clicáveis para outras páginas. Você não precisa pedir autorização a ninguém, nem ser programador.
Mas pense: o que é um link? É uma recomendação.
Ela diz: “aqui está outra página de que você pode gostar”. Ou diz “aqui está uma página que diz algo que acho errado”. A web foi inventada para nos tornar mais fácil recomendar e compreender páginas e sites.
Desde então, tudo que se faz é criar modos melhores de encontrar coisas na rede. Para o consultor, atualmente uma das tendências mais importantes é o desenvolvimento de redes sociais que nos ajudam a achar sites válidos baseando-se no que nossos amigos e conhecidos pensam deles.
— Com isso, estamos dominando juntos a internet.
Para Weinberger, a desordem que mais o afeta é a dos blogs.
— Posso encontrar perspectivas fascinantes nos lugares mais improváveis. E os blogs estão sempre linkados, conversando uns com os outros, de modo que essas perspectivas se refletem umas nas outras. Acabo tão hiperestimulado que mal consigo dormir à noite.
Tecnologia levou a uma pressão brutal no trabalho
Nem todos concordam que a nova desordem digital é o caminho certo para uma nova vida. Carlos Afonso, diretor de planejamento da Rede de Informações do Terceiro Setor (Rits) e um dos pioneiros da internet no Brasil, lembra que, apesar de todo o oba-oba em cima das novas mídias, para quem trabalha utilizando a grande rede como instrumento, a ferramenta número um continua sendo o email.
— E é preciso separar a festividade (o “hype”) da realidade do dia-a-dia — pondera Carlos.
— Você cria um blog, é aquela festa, mas descobre logo depois que é um inferno mantê-lo. Desperta o interesse de amigas e amigos, e outros, e acaba frustrado e os frustra, simplesmente porque você trabalha e não tem tempo para o seu blog, muito menos de ficar lendo o blog dos outros.
Ele crê que a grande mudança no trabalho que a internet trouxe, especialmente após a chegada das ferramentas de busca (culminando no Google), foi um aumento brutal da pressão por eficiência.
— Isso juntou-se ao computador em casa e no trabalho, uma máquina de escrever, calcular e imprimir que transforma cada pessoa (mesmo que não queira ou não possa) em secretária, datilógrafa, revisora, redatora, artista gráfica e produtora de conteúdos — contrapõe.
— Se você é um trabalhador que usa a Internet como instrumento hoje, você tem por hipótese todas essas funções ou habilidades, e se supõe que pode usar todas quase ao mesmo tempo!
Segundo ele, as empresas, a universidade, as escolas, a burocracia do Estado passam a esperar do funcionário, do cidadão ou do estudante um desempenho, nos últimos 10-15 anos, “que nunca pudemos ter desde o início da história humana”.
— Nós fomos projetados pela Natureza para esse desafio? As consequências para o corpo e o espírito ainda precisam ser medidas, teorizadas e analisadas, mas é óbvio que serão graves, afetando até nosso tempo de vida saudável — afirma Carlos. — Mudanças de comportamento para evitar essas consequências terão que vir e ser parte inclusive de políticas públicas e de padronização de ambientes de trabalho e lazer.
Lidar com informações é hoje um ato muito diferente Já André Kischinevsky, diretor do Instituto de Formação Internet (Infnet), não é um crítico do processo, apenas reconhece que tudo mudou. E que não há volta.
— Hoje, localizar, acessar, trocar ou adquirir informações é um ato muito diferente do que foi há pouco tempo. A forma de trabalhar é necessariamente afetada, na medida em que estamos inseridos em uma sociedade que, corretamente, nos exige o máximo de produtividade permitida pela tecnologia e processos disponíveis — diz André. — A existência de facilidades obriga os profissionais a se adaptarem.
[*] Não coloco o enlace, porque os executivos d’O Globo decidiram que, para ler os artigos, é preciso usar uma geringonça que imita o folhear de um jornal (de onde terá saído essa idéia de jerico?), e que dificulta a reprodução para pesquisa etc. Aliás, uma espécie de virus virtual (de reais consequências) que afetou os que decidem a cara dos jornais na Web, tanto n’ O Globo, como no JB e no Estadão. Padrões abertos, interoperabilidade, navegabilidade e acessibilidade… todos esses que decidem essas coisas nessas empresas jornalísticas, bem como os nerds que projetam essas páginas, devem ter visão 20/20, ouvir perfeitamente dos dois ouvidos, ter uso completo e perfeito de mãos, pernas e braços, pagar licenças caras à Microsoft e usar só os produtos dessa empresa etc etc… Triste: mais tecnologia, menos funcionalidade para o que interessa: o acesso pleno, claro e fácil ao conteúdo. Em tempo: a Folha ainda não se rendeu a essa festividade inútil. Vamos ver quanto dura…