24 September 2007 - 19:58Paraguai: atentado contra a neutralidade da rede

Divulgo esta denuncia contra a COPACO (telefônica estatal paraguaia), que atenta contra a neutralidade da rede bloqueando todo o tráfico de telefonia via Internet (voz sobre IP, ou VoIP) desde o dia 22 de junho de 2007.

Ainda não chegamos a isso no Brasil (apesar de algumas tentativas da Brasil Telecom contra a GVT e o serviço Skype), mas não seria surpresa se chegássemos.

mensagem original em espanhol

La Compañía Paraguaya de Comunicación COPACO, bloquea el protocolo SIP desde el 22 de junio del 2007 constituyéndose en un grave atentado contra la neutralidad de la red y un claro caso de censura a internet en Paraguay. Ningún usuario particular, ni telecentro instalado en territorio paraguayo puede realizar comunicación telefónica por medio del IP o sea por internet. El acceso a la telefonía VoIP es una gran alternativa para la población de acceder a una comunicación mucho mas barata con sus familiares radicados en el exterior.

La siguiente es una denuncia presentada en la ciudad de Nueva York al Presidente de la Honorable Cámara de Diputados de Paraguay Oscar Salomón sobre dicho bloqueo:

Nueva York, de septiembre de 2.007.

Senor
Diputado Nacional Oscar Salomón
PRESIDENTE DE LA HONORABLE CÁMARA DE DIPUTADOS

De nuestra mayor consideración:

Nos dirigimos al Señor Presidente de la Honorable Cámara de Diputados del Paraguay a fin de de presentarle la siguiente denuncia:

El día 22 de junio del presente año, la Compañía Paraguaya de Comunicaciones, COPACO S.A. (en adelante COPACO) procedió al bloqueo o desconfiguración de unos puertos y protocolos de Internet necesarios para la transferencia de voz e imágenes, imposibilitando la comunicación a través del VoIP y la realización de video conferencias. Pese a las numerosas denuncias de usuarios paraguayos de Internet en el Paraguay y EEUU, directivos de la COPACO niegan sistemáticamente el hecho.

El protocolo SIP, conocido técnicamente como el protocolo de inicio de la sesión SIP, es una aplicación que se utiliza para establecer, mantener y terminar sesiones multimedia (audio y video por Internet). Mediante este protocolo se uede, y con mayor calidad, realizar comunicaciones de voz, como hablar de computadora a computadora, de computadora a un teléfono y de un teléfono a otro teléfono. Este sistema de comunicación se realiza gracias al avance de la tecnología VoIP.

Se conoce VoIP como un grupo de recursos que posibilitan que la señal de la voz viaje a través de Internet empleando un protocolo IP (Internet Protocol). También se la denomina como Voz sobre o Telefonía IP, esto significa que se envía la eñal de voz en forma digital en paquetes en lugar de enviarla en forma de circuitos como realiza la COPACO. El desarrollo de la tecnología VoIP ha posibilitado que miles de paraguayos accedan a llamadas mucho más económicas hacia y desde Paraguay.

La COPACO busca confundir a la opinión pública, diciendo que son los únicos autorizados por Ley de realizar llamadas telefónicas internacionales. Una comunicación telefónica utilizando el VoIP no tiene ninguna relación con la telefonía pública básica como es la COPACO, por lo tanto no puede tener ingerencia en llamadas telefónica mediante los puertos SIP.

Se debe aclarar que la tecnología de VoIP no es un servicio como tal, sino una tecnología que usa el Protocolo de Internet (IP) a través de la cual se comprimen y descomprimen de manera altamente eficiente paquetes de datos o datagramas, para permitir la comunicación de dos o más clientes a través de una red como la red de Internet. Con esta tecnología pueden prestarse servicios de Telefonía o Videoconferencia, entre otros. Ningún ente regulador puede ejercer control de la tecnología VoIP.

La principal ventaja del VoIP es que evita los cargos altos de telefonía (principalmente de larga distancia) que son usuales de las compañías de la Red Pública Telefónica Conmutada (COPACO). Algunos ahorros en el costo son debidos a utilizar una misma red para llevar voz y datos, especialmente cuando los usuarios tienen sin utilizar toda la capacidad de una red ya existente en la cual pueden usar para VoIP sin un costo adicional.

El bloqueo o la inutilización de los puertos SIP en Paraguay se puede considerar como un grave caso de censura a Internet y acto atentatorio contra la neutralidad de la red. Los usuarios finales en Paraguay no tendrán derecho a utilizar libremente esta poderosa herramienta de comunicación como lo hacen los ciudadanos de todo el mundo, menos en los gobiernos totalitarios. Miles de compatriotas que envían sus remesas en Paraguay no pueden comunicar con sus familiares de una manera económica y eficaz.

A ello cabe agregar que de acuerdo a la Constitucion Paraguaya vigente, los derechos de prensa e información son derechos fundamentales altamente protegidos y considerados como valores constitucionales a ser protegidos por el Estado Paraguayo, razón por demás para que vuestra Camara adopte medidas urgentes para impedir y evitar esta ilegal y perniciosa intromisión de la COPACO S.A. en los derechos de los ciudadanos paraguayos, y mas aun de los paraguayos que viven en el exterior.

Por lo expuesto solicitamos al Señor Presidente de la Honorable Cámara de Diputados, inicie en forma inmediata las acciones necesarias para levantar este injusto e ilegal bloqueo de los puertos SIP de Internet.

Será Justicia.

Miguel Acosta Alberto Sandoval Diez
Director Abogado
El Mirador Paraguayo
Asesor Legal

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17 September 2007 - 8:15Um sinal?

Sobre o caso Renan, depois da votação no Senado, peço somente o seguinte: que os senadores do PT, tal como o fez Aloizio Mercadante, abram seus votos e os justifiquem publicamente.

Estou preparado para ouvir (já ouvimos de tudo…), inclusive mais declarações paradoxais como a do senador Mercadante — que se absteve porque não foi provada a culpa. Mas, se não foi provada a culpa, o voto não seria contra a cassação, e não a abstenção? Enfim, vamos lá. Aguardo as declarações de voto dos senadores do PT.

Seria um pequeno, ínfimo mas já encorajador sinal, um vagalume no final de um longo túnel…

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14 September 2007 - 11:17Declaração importante do CGI.br

Ao longo dos últimos anos, o Comitê Gestor da Internet no Brasil vem sofrendo ataques sistemáticos e repetitivos de um grupo empresarial do Paraná (através de vários sítios Web no Brasil e no exterior controlados por esse grupo, e via listas de email e “spams” com remetentes falsos) que teve seus interesses comerciais afetado pela forma em que os nomes de domínio “.br” são administrados no país. Os conselheiros do CG, ante o recrudescimento desses ataques, além de ter adotado medidas jurídicas pertinentes, divulgaram a declaração abaixo sobre o assunto.

Declaração dos conselheiros do CGI.br sobre as denúncias forjadas por grupo empresarial contra a entidade

Essas denúncias infundadas não surgiram agora. É fundamental entender a origem e também por que sempre é o mesmo grupo que faz essas acusações (o que já deveria levantar suspeitas sobre as razões reais disso), que essencialmente são as mesmas com pequenas variações na montagem dos parágrafos.

Essas mensagens são parte de uma campanha feita por um grupo empresarial do Paraná que teve seus interesses comerciais contrariados pela forma com que o CGI.br administra nomes e números no Brasil. Há alguns anos, esse grupo registrou uma quantidade enorme de nomes de domínio (não há limite para o número de domínios que uma empresa pode registrar sob o mesmo CNPJ), com a intenção de tornar-se revendedores de nomes de domínio (tornando-se um “registrar”, que é uma intermediador de domínios, tanto de gTLDs — domínios genéricos globais — como de alguns domínios de países – os ccTLDs — que optaram por transformar seus domínios nacionais em mercadorias, algumas vezes geridos por empresas estrangeiras, tal como se fossem gTLDs).

No Brasil não existem “registrars” para o domínio “.br”, havendo somente uma entidade registradora (”registry”), o Registro.br, sob gestão do NIC.br e orientação do CGI.br, que distribui os domínios sob o ccTLD “.br” sem finalidade lucrativa e com os cuidados necessários para que este seja preservado como a identidade do Brasil na Internet e não como uma mercadoria. Quem vê um domínio “.tv”, “.st” ou “.fm”, dentre alguns outros, não sabe a que país se refere — são domínios que viraram domínios comerciais globais; seus respectivos países perderam sua identidade na Internet. Por exemplo, o domínio “.tv”, hoje usado por emissoras de televisão de todo o mundo, é de Tuvalu. Por outro lado, o “.br”, como o “.ca”, o “.de” e muitos outros, são administrados com a visão de identificar cada domínio com seu país. E o “.br” vai além — é administrado sem fins de lucro e com a visão de ser um bem da comunidade, com uma governança pluralista. Essa é uma conquista sacramentada desde a criação do CGI.br em 1995, e aprofundada a partir de 2003 com a eleição dos conselheiros não governamentais por seus próprios grupos de interesse.

É claro que nada impede que duas entidades negociem entre si o repasse de um domínio de uma para outra, mas isso não envolve o CGI.br e não é homologado pelo CGI.br — se houver problema nessa transação, nada o CGI.br poderá fazer para reverter o processo se a transferência do domínio seguiu as normas claramente estabelecidas pelo Registro.br.

O fato é que, ao tentarem registrar um domínio, as empresas brasileiras muitas vezes percebiam que o mesmo já estava registrado por esse grupo empresarial paranaense. Se não houvesse base legal para lutar pelo nome (como no caso de marcas registradas, nomes amplamente conhecidos como identificando determinada empresa etc), as empresas, ante o preço extorsivo cobrado por esse grupo, simplesmente buscavam outro domínio similar disponível e o registravam pelo valor padrão anual do registro.br. Isso acabou levando o negócio do grupo ao fracasso, e desde então este trava uma guerra suja contra o CGI.br para tentar mudar radicalmente as normas — com o propósito de simplesmente transformar o CGI.br em uma empresa negociadora de domínios, mudando as regras segundo os interesses do mercado e não do país.

A análise detalhada dessa saraivada de acusações totalmente infundadas toma tempo (trabalho que vem sendo exaustivamente feito pelo setor jurídico do CGI.br em vários processos judiciais sendo movidos contra o grupo), mas alguns pontos são óbvios:

- Desde que o registro de domínios no país começou a ser pago, há cerca de 10 anos, com a administração feita por um projeto da Fapesp em acordo com o CGI.br recém criado, as contas desse processo são rigorosamente auditadas e publicadas.

- Com o início da administração de nomes e números pelo NIC.br, a partir de 2006, manteve-se rigorosamente o processo de auditoria. Lembremos que desde 2004 o CGI.br é uma organização pluralista com membros escolhidos por eleições de todos os setores não governamentais (empresariais, acadêmicos e terceiro setor) e seria muito ingênuo imaginar que todos esses membros, com tal diversidade e sendo voluntários, estariam compactuando com as supostas irregularidades sistematicamente forjadas pelo grupo paranaense ao longo dos últimos anos.

- Outras acusações, como a falácia que as liberações de domínios sempre ocorreriam em feriados, não se sustentam. No caso da liberação de domínios existentes, basta pegar um calendário e conferir, lembrando que esses processos de liberação não são feitos de surpresa em um único dia, mas seguem rigorosamente regras claras explicadas em detalhe no sítio Web do CGI.br. Isso incomoda profundamente o grupo, que perde domínios por frequentemente usar CNPJs forjados ou “laranjas”, ou por não pagar as anuidades devidas, e esses domínios entram no processo de liberação para que outras entidades possam usá-los (note bem: pagando apenas a anuidade padrão do CGI.br).

Por exemplo, considerando a data de elaboração deste texto (10/9/2007), o próximo processo de liberação anunciado no sítio Web do registro.br ocorrerá de 06/10/2007 às 15:00 a 21/10/2007 às 15:00 — um total de duas semanas corridas — e a lista de domínios disponíveis para liberação será publicada em 01/10/2007. Mesmo com feriados ou fins de semana no meio (o que não é surpresa que ocorra em duas semanas corridas), convenhamos: há tempo suficiente para qualquer empresa candidatar-se a um domínio disponível para liberação.

Em resumo, nada resiste às bravatas e acusações do grupo. Para quem duvida e prefere acreditar em acusações completamente sem pé nem cabeça (basta ler em detalhe e prestar atenção para ver que são repetitivas, sempre a mesma coisa, e as “provas” são um amontoado de asneiras feitas para confundir quem não está informado sobre o que faz o CGI.br desde sua criação em 1995), basta verificar a abundante informação nos próprios sítios Web do CGI.br.

Todos os conselheiros concordaram que o CGI.br deve mover ações civis e penais contra o grupo, o que está sendo feito há algum tempo. Afinal, é a instituição como um todo que está sendo atacada, e não um ou outro conselheiro ou funcionário. Já houve condenações e ultimamente eles adotam inclusive o método de forjar emails de conselheiros para enviar mensagens com as mesmas denúncias de sempre (mais um ilícito penal), tendo inclusive movido seus sítios Web para servidores no exterior, ao serem impedidos pela Justiça de mantê-los no Brasil.

Só esperamos que as campanhas dos candidatos de todos os setores aos cargos de conselheiros do CGI.br não adotem métodos similares, ou ecoem esse tipo de jogo sujo — na verdade, com isso acabarão desmoralizados rapidamente e, se mesmo assim forem eleitos, terão que compartilhar a mesa com os outros conselheiros que estarão lá (tanto os de governo, que não serão trocados agora, como os que forem reeleitos) — uma situação no mínimo constrangedora ante os fatos.

Não se ganha nada em remuneração financeira como conselheiro do CGI.br, apenas muito trabalho voluntário se quiserem participar a sério da governança da Internet no país.

Por fim, é importante dizer que o CGI.br não é perfeito (nada é perfeito).

Já conquistamos muita coisa (os projetos CERT.br, PTT.br e CETIC.br são bons exemplos), mas estamos em doloroso processo de separação da Fapesp (em que esta retém os recursos excedentes do CGI.br, essenciais para uma política de apoio a projetos de alavancagem das TICs para o desenvolvimento humano no país) que ainda não foi concluida, e é preciso consolidar a legislação que deu vida a esta parceria pluralista única para a governança de um bem comum no Brasil, hoje considerada mundialmente como um modelo excepcional em seu campo, para que seja perpetuada e melhorada ainda mais.

10 de setembro de 2007

Assinam os conselheiros do CGI.br (em ordem alfabética de nomes):

Alexandre Annenberg Neto (setor empresarial)
Antonio Alberto Valente Tavares (setor empresarial)
Augusto César Gadelha Vieira (Ministério da Ciência e Tecnologia)
Carlos Alberto Afonso (terceiro setor)
Cássio Jordão Motta Vecchiatti (setor empresarial)
Demi Getschko (notório saber)
Gustavo Gindre Monteiro Soares (terceiro setor)
Henrique Faulhaber (setor empresarial)
José Alexandre Novaes Bicalho (suplente. Anatel)
José Roberto Drugowich de Felício (CNPq)
Luci Pirmez (comunidade científica e tecnológica)
Luiz Fernando Gomes Soares (comunidade científica e tecnológica)
Manoel Fernando Lousada Soares (Min.Desenv., Indústria e Comércio Exterior)
Marcelo Andrade de Melo Henriques (Ministério da Defesa)
Marcelo Bechara de Souza Hobaika (Ministério das Comunicações)
Marcelo Fernandes Costa (terceiro setor)
Mário Luis Teza (terceiro setor)
Nelson Simões da Silva (comunidade científica e tecnológica)
Nivaldo Cleto (suplente, setor empresarial)
Omar Kaminski (suplente, comunidade científica e tecnológica)
Plinio de Aguiar Junior (Anatel)
Renato da Silveira Martini (Casa Civil)
Roberto Francisco de Souza (suplente, terceiro setor)
Rodrigo Ortiz Assumpção (suplente, Min.Planejamento, Orçamento e Gestão)
Rogério Santanna dos Santos (Min.Planejamento, Orçamento e Gestão)

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3 September 2007 - 7:46Temos Ministério da Defesa?

O artigo de Kennedy Alencar precisa ser disseminado, em defesa da consolidação de nossa democracia representativa, razão pela qual o reproduzo aqui.

02/09/2007

Exército mantém mentalidade golpista

KENNEDY ALENCAR
Colunista da Folha Online

A nota do Alto Comando do Exército sobre o livro “Direito à Memória e à
Verdade” é uma triste notícia para o país. Divulgada na sexta-feira (31/08),
a nota mostra que continuam firmes e fortes nas Forças Armadas a mentalidade
golpista, certa resistência ao poder civil e uma dose de indisciplina
incompatível com a vida militar.

O livro conta uma verdade histórica. Pela primeira vez, um documento do
governo federal relata em detalhes atos cruéis da ditadura militar
(1964-1985).

A reação do Alto Comando deveria ter sido de vergonha. Uma autocrítica e um
pedido de desculpas soariam muito bem. Instituições como a Igreja Católica
já agiram assim a respeito do que consideraram erros e abusos do seu
passado. Mas qual foi a reação dos nossos militares, em pleno século 21?

“Não há Exércitos distintos. Ao longo da história, temos sido o mesmo
Exército de Caxias, referência em termos de ética e de moral, alinhado com
os legítimos anseios da sociedade brasileira”, diz a nota do Alto Comando,
que se reuniu extraordinariamente para discutir o livro.

Lamentável constatar que os atuais generais consideram integrar o mesmo
Exército daqueles que executaram presos que já não podiam reagir. Torturaram
intensamente militantes de esquerda. Abusaram sexualmente de homens e
mulheres. Estupraram. Decapitaram. Esquartejaram. Ocultaram cadáveres.
Enganaram famílias, exigindo dinheiro em troca de informações que se
comprovaram falsas. Deram versões falsas ao público.

A reação do Exército, disseram reservadamente os generais, aconteceu porque
o ministro da Defesa, Nelson Jobim, fez um discurso duro na quarta-feira
(29/08) durante a solenidade de lançamento do livro que relata onze anos de
trabalho da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos.

“Não haverá indivíduo que possa reagir e, se houver, terá resposta”, disse
Jobim, num aviso a críticas de bastidor que a colunista Eliane Cantanhêde
revelou na edição impressa da Folha.

Jobim agiu corretamente na quarta. Fundou o Ministério da Defesa, pasta que
os militares nunca engoliram. No entanto, o ministro da Defesa errou na
sexta, ao aceitar a nota do Alto Comando do Exército. No mínimo, Jobim
perdeu capital político.

A nota é um ato de indisciplina contra o ministro civil que comanda os
militares. A alegação de que Jobim os afrontou, ainda que fosse verdadeira,
não justifica a reação. Militar tem de bater continência por dever de
ofício. É pago para, se necessário, suportar afronta do superior
hierárquico. E, convenhamos, esse negócio de afronta foi desculpa para bater
no livro.

Mas há coisa pior: a nota afirma que a Lei de Anistia, de 1979, “produziu a
indispensável concórdia de toda a sociedade, até porque os fatos históricos
têm diferentes interpretações, dependendo da ótica de seus protagonistas”.

Se a mira do Exército brasileiro for tão certeira quanto a sua interpretação
da história, estamos todos perdidos. Não haverá soldados aptos a defender o
país.

A repressão política agiu com consentimento dos mais altos dirigentes da
ditadura, inclusive de generais-presidentes. O livro relativizou a tese de
que a Lei da Anistia de 1979 se estendeu a todos os crimes cometidos pelos
militares. Cortes internacionais afirmam claramente: são imprescritíveis os
crimes contra os direitos humanos. Portanto, há, sim, controvérsia a
respeito da Lei da Anistia.

Por razão política, Lula fez um discurso moderado no lançamento do livro,
dizendo que o ato não era revanche. Por razão política, o Brasil pode fingir
que os crimes contra os direitos humanos prescreveram. Mas estará passos
atrás de outros países da América Latina, que já realizaram um ajuste de
contas com o seu passado ditatorial. O Chile levou Augusto Pinochet ao banco
dos réus, por exemplo.

Desequilíbrio

Na discussão “ditadura x guerrilheiros”, há um aspecto sempre abordado com
desequilíbrio. O livro da comissão de direitos humanos reconhece que ações
dos militantes de esquerda fizeram vítimas entre os defensores da ditadura.

A geração que enfrentou a ditadura cometeu erros. O maior deles foi ter
avaliado que a luta armada era o melhor caminho a ser seguido. Os militares
afirmam que os guerrilheiros de esquerda eram autoritários que queriam
transformar o Brasil numa ditadura comunista.

Esse argumento é fajuto e desequilibrado. Quem rompeu a legalidade
institucional do país foi a direita. Golpistas como Carlos Lacerda se
arrependeriam logo depois da “revolução” de 1964.

Se a esquerda tivesse assumido o poder, torturado e assassinado, faria
sentido dar aos seus erros a dimensão dos erros da direita. Foi a direita
que assumiu o Estado brasileiro. Foi a direita que torturou e matou em nome
do Estado. Cometendo equívocos que o país também merece conhecer, a esquerda
reagiu.

A palavra está agora com o ministro Nelson Jobim. Se fizer de conta que a
nota do Alto Comando do Exército faz parte da paisagem, seguirá o destino
dos antecessores. Ministros da Defesa que viraram fantoches.

Kennedy Alencar, 39, é colunista da Folha Online e repórter especial da
Folha em Brasília. Escreve para Pensata
<http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/alencar.shtml>  às sextas e para
a coluna Brasília
<http://www1.folha.uol.com.br/folha/colunas/brasiliaonline/>  Online, sobre
os bastidores da política federal, aos domingos.

E-mail: kalencar@folhasp.com.br

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